As mulheres estão bebendo mais

05/05/2014

Ruy Palhano – Médico Neuropsiquiatra

alcool_mulheresResultados de pesquisas recentes mostram que as mulheres brasileiras estão bebendo mais e de forma exagerada, o que sinaliza para o agravamento desse problema entre nós. O consumo do álcool sempre foi significativo na pulação brasileira, tanto é que nosso padrão de consumo se encontra entre os mais elevados do mundo.

O álcool é uma das poucas drogas que tem seu consumo é incentivado pela sociedade. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a mortalidade e limitação da condição funcional humana associada ao consumo de bebidas alcoólicas superam aquelas associadas ao tabagismo. Calcula-se que, mundialmente, o álcool esteja relacionado a 3,2% de todas as mortes e 4,0% das Desabilidades funcionais na vida de alguém, e em país como o nosso o álcool é o fator de risco que mais contribui para a carga de doenças, sendo responsável por 6,2% do total dessas enfermidades.

Os dados revelados pelo II Levantamento Nacional sobre o Consumo de Álcool e outras Drogas (II LENAD), realizado pela Universidade Federal do São Paulo- UNIFESP e pelo Instituto Nacional de Políticas sobre Drogas – INPAD, amplamente publicado pelos meios de comunicação, mostram que de 2006 a 2013 as mulheres aumentaram em 20% o consumo de álcool. Além disso, o que mais chamou atenção é que o padrão de consumo da bebida entre elas se modificou: além de beberem mais, o fazem de forma rápida.

Esta forma de beber é conhecida como “beber em binge” que é definido como um padrão de consumo de cinco doses de álcool em uma mesma ocasião e em pouco tempo, condição que leva à embriaguez mais rapidamente.

Esta forma de beber pode contribuir para o desenvolvimento do alcoolismo, que é uma doença grave, que evolui de forma crônica e que um dos sintomas cruciais dessa doença é o descontrole no consumo. Assim, a pessoa, quando começa a beber, tem grande dificuldade em parar, de tal forma que muitos só conseguem quando já absolutamente embriagados. Outros sequer se lembrarem do que se passou no curso da embriaguez.

Os dados do levantamento confirmam que as pessoas estão começando a beber muito cedo, em torno dos 12 anos. 7% dos adolescentes com idade entre 12 a 17 anos já são dependentes do álcool. Entre os jovens de 18 a 24 anos, 78% já fizeram uso da substância e 19% são dependentes. São índices muito altos que representam ameaça real à saúde mental, social e física desses jovens brasileiros.

A situação atual é muito preocupante do ponto de vista médico, psiquiátrico e social: 1) as pessoas estão começando a beber muito cedo (12 anos); 2) 7% dos adolescentes já são dependentes de álcool; e 3) as mulheres estão bebendo mais e em “binge”. Essas são condições encontradas na pesquisa que mostram a gravidade desse problema que temos de enfrentar nos próximos anos.

No caso de se iniciar o consumo precocemente, já se tem bastante conhecimento mostrando que o cérebro desses jovens em torno de 12 anos ainda está em desenvolvimento, portanto não preparado para suportar a presença do álcool ou de outras drogas, condição que fatalmente irá provocar surgimento de inúmeras doenças mentais, físicas e sociais relacionadas aos danos cerebrais.

Imagine-se em um país como o nosso, que praticamente a metade da população é jovem, desengajada de trabalho, com baixo acesso à educação e com renda incerta. Isso tudo associado ao uso compulsivo e doentio do álcool definirá uma juventude sem perspectivas, forçosamente enferma pelas doenças provocadas pela dependência química e, na conjuntura atual, sem assistência médica e psicossocial.

Em relação ao consumo de álcool entre às mulheres, já sabemos que elas respondem diferentemente ao álcool se comparadas com o consumo dos homens, isto é, as mulheres são menos tolerantes e mais sensíveis a molécula do álcool, graças à sua genética e à sua estrutura física, metabólica e funcional. Doses baixas de álcool provocam mais danos ao seu organismo. As doenças mentais e a dependência ao álcool se instalam mais facilmente entre mulheres, além de se embriagarem mais facilmente. Isso explicaria o aumento cada vez maior de casos de Síndrome Alcóolico-Fetal – SAF, que cresce assustadoramente entre as mulheres que ingerem álcool quando grávidas.

Os fatos revelados na pesquisa reafirmam o que tenho dito há anos: a necessidade de uma política pública mais arrojada, mais consistente e mais embasada em evidências epidemiológicas sobre o consumo de álcool na população brasileira, especialmente em relação a crianças, adolescentes e mulheres. A continuar como se está, com autoridades que fazem vista grossa ao problema e não assumem as responsabilidades que lhes competem, as consequências fatalmente serão nefastas para todos nós.

Fonte: Jornal Pequeno

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