Esquizofrenia: ideologia versus ciência

As políticas de saúde mental são pautadas em ideologias da década de 70. Transtornos mentais são comuns demais para ainda termos preconceito

18/05/2014

Neste 18 de maio, é celebrado o dia da Luta Antimanicomial. Avanços foram obtidos nesta década de vigência da lei da reforma psiquiátrica. Em vez de continuarem à margem nos hospitais psiquiátricos, os portadores de transtornos mentais graves passaram a ser atendidos em ambulatórios ou nos Caps (Centros de Atenção Psicossocial). No entanto, essas políticas estão anacrônicas e privam os pacientes dos melhores tratamentos.

O diagnóstico de um transtorno mental grave como a esquizofrenia é frequentemente entendido como uma sentença de comprometimento da vida em sociedade. A ciência mostra, porém, que o diagnóstico é o eixo articulador de estratégias terapêuticas para a remissão de sintomas e a reabilitação das pessoas.

Diversos trabalhos científicos demonstram de forma inequívoca que a esquizofrenia afeta a formação de redes neurológicas e que a dopamina, substância que promove a conexão de algumas vias neuronais, desregula-se, determinando a ocorrência de sintomas psicóticos como delírios e alucinações. Quando uma pessoa com esquizofrenia diz estar ouvindo vozes de alienígenas, essas vozes existem, não são loucura.

Estudos mostram que o cérebro dessa pessoa produz as vozes, portanto, ela as está ouvindo, mas não consegue ativar áreas que permitem perceber serem uma criação. Assim, a pessoa tende a se desorganizar e fazer coisas que normalmente caracterizamos como loucuras.

Medicações são capazes de bloquear o aumento da atividade da dopamina, levando a uma redução dos delírios. Esse tratamento é fundamental para o início de um processo de reabilitação. Estima-se que 1% da população mundial tenha esquizofrenia e os recursos gastos no tratamento da doença em países desenvolvidos são maiores do que os destinados ao tratamento de todos os tipos de câncer somados.

É fundamental que o tratamento seja de longo prazo, pois o foco é tanto a reabilitação quanto a prevenção. A cada recaída, o paciente tem pioras significativas, necessitando de doses mais altas de medicação e eventualmente de internações psiquiátricas. Há um progresso da deterioração das alterações cerebrais e todo o processo de reabilitação volta à estaca zero até que haja controle dos sintomas psicóticos.

Com a progressão da doença, 30% dos pacientes ficam refratários às medicações convencionais e só o uso da clozapina permite o controle da doença. Isso é o que preconiza a abordagem contemporânea do transtorno. Para pacientes com dificuldade de adesão, chegaram medicações de última geração que podem ser injetadas mensalmente, reduzindo o desgaste da tomada via oral.

Dados do Programa de Esquizofrenia da Universidade Federal de São Paulo avaliando Caps da região metropolitana de São Paulo confirmam que 30% dos pacientes com esquizofrenia são refratários ao tratamento (não respondem positivamente à medicação). Destes, 27% tomam clozapina –portanto, 73% dos pacientes refratários são negligenciados. A clozapina é fornecida pelo Estado gratuitamente. Por que não é utilizada adequadamente?

As políticas de saúde mental implementadas são pautadas em ideologias da década de 70, não incorporam os avanços das neurociências. Os transtornos mentais são comuns demais para que continuemos a vê-los com preconceito. São doenças como quaisquer outras, mas que têm a peculiaridade de afetar o órgão do corpo que nos diz quem somos.

RODRIGO BRESSAN, 45, doutor pela Universidade de Londres, é professor de medicina e coordenador do Programa de Esquizofrenia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)

Fonte: Folha de São Paulo

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