Ideologia dificulta tratamento de doenças mentais, dizem especialistas

neurose e psicoseOs médicos Rodrigo Affonseca Bressan, professor e coordenador do Programa de Esquizofrenia da Unifesp, e Luiz Tenório de Oliveira Lima, secretário-geral da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, discutiram como a ideologia de profissionais da saúde atrapalha o tratamento de transtornos mentais no Brasil.

O painel “Doenças da vida moderna” encerrou o primeiro dia de debates e palestras do Fórum a Saúde do Brasil, promovido pela Folha no Tucarena, em São Paulo.

“Cerca de 30% dos pacientes dos Caps [Centros de Atenção Psicossocial] de São Paulo precisam de um remédio chamado Clozapina, mas não recebem”, disse Bressan. Segundo ele, o medicamento não é utilizado por conta de desavenças ideológicas entre clínicos e psicólogos que, por exemplo, não concordam com a prescrição de remédios para certos casos.

Para Tenório, esse “sistema de crenças” compartilhado por profissionais imobiliza diagnósticos mais precisos na área da saúde mental. “É uma trava cultural”, disse o médico.

Os especialistas também aproveitaram o último painel do dia para comentar a dificuldade de se diagnosticar a depressão hoje. “Eu ainda utilizo o ensinamento de Hipócrates, segundo o qual ‘tristeza, quando dura, é melancolia'”.

Bressan ressaltou a importância de não restringir a especialistas o tratamento de pacientes com depressão. “Saúde mental não é coisa de psiquiatra, é também responsabilidade do médico de família e do enfermeiro”, disse.

‘URBANICIDADE’

Pesquisa com dados da Previdência Social em 2012 registrou transtornos mentais e comportamentais como a terceira maior causa das concessões de auxílio-doença no país.

Em 2011, o número total de afastamentos por transtornos mentais foi de 12.337, sendo que 31% deles foram por depressão. Já o estresse representava 26%.

Segundo Bressan, isso se deve ao nível de exigência de alta performance que as pessoas enfrentam hoje em dia. Sejam nas áreas das faculdades cognitivas, sócio-emocionais e interpessoais.

“Por exemplo, se um filho estudou e virou médico e o outro virou pipoqueiro, isso antigamente não era problema nenhum. Agora, se isso acontece, a família trabalha para que o que iria vender pipocas corra atrás de algo superior”, explica.

Para ele, a “urbanicidade” também influencia no aumento dos transtornos mentais, já que a exigência da vida em sociedade é muito intensa.

MULHERES

Em estudo realizado pela USP em 2009 na cidade de São Paulo, 11,9% da população afirmou sofrer com algum transtorno mental, sendo as mulheres as mais atingidas pela depressão e pela síndrome do pânico.

Não há uma explicação para as mulheres terem tendência a essas doenças, mas Bressan relata que a mulher tem uma neurobiologia diferente e que hormônios ou questões sociológicas também podem influenciar.

“É mais comum você ter em homens casos de psicose. E, quando aparecem quadros de ansiedade, eles tendem ao abuso do álcool, enquanto as mulheres usam calmantes”, comenta.

Fonte: Folha de São Paulo