Maconha continua a droga mais consumida no mundo

Com base em estimativas recentes, divulgadas pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Undoc), a maconha continua sendo a droga ilegal mais consumida em todo o mundo, com 180 milhões de usuários. De acordo com o Conselho Nacional de Segurança Pública (Conasp), em Goiás existem cerca de 300 mil usuários de droga, sendo as mais consumidas no Estado a maconha e a cocaína. Só ano passado a Delegacia Estadual de Repressão a Narcóticos (Denarc) apreendeu 13 toneladas de maconha e 170 quilos de cocaína.

Para o delegado titular da Denarc, Odair Soares, a apreensão de maconha se torna mais comum porque é uma droga mais barata, o que facilita sua maior circulação. “A droga mais usada no Estado e em Goiânia é a maconha, pelo preço, pela abundância no mercado, pela facilidade de se encontrar o produto, o preço é mais barato. A segunda é a cocaína”, constata.

Odair explica que outro fator que facilita a comercialização da maconha no País, é a proximidade do fornecedor que, de acordo com ele, o maior produtor mundial de maconha é o Paraguai que só perde para o México, que ocupa a primeira posição na produção da droga. Consequentemente é a droga que a polícia mais faz apreensão. Só em 2013 foram apreendidas, pela Polícia Civil, em todo o Estado, mais de 3,15 mil toneladas. Sendo só na Capital, entre janeiro a dezembro 3,1 toneladas.

Já o crack, droga feita a partir da mistura de pasta de cocaína com bicarbonato de sódio, é a terceira droga mais consumida no Estado. Ela que vem ganhando olhares atenciosos das autoridades responsáveis por seu alto poder destrutivo. “A Denarc é uma delegacia de combate ao tráfico e uso de drogas, nós tentamos impedir ao máximo a entrada de todos os tipos de entorpecentes, mas o crack, por ser uma droga altamente viciante e barata, merece uma atenção maior e é a partir da apreensão dos usuários que nós chegamos aos distribuidores”, avalia.

Ele explica que foi criado para combater a entrada de drogas e armas no Estado o Comando de Operações de Divisas (COD), que também visa o grande tráfico e é formado por um batalhão que vigia as fronteiras com o intuito de combater a entrada de drogas. “Nas duas frentes, no Estado de Goiás há combate: o COD, com vigilância e fiscalização de fronteiras, e a parte nossa que é fazer ações investigativas atacando aquilo que nós já investigamos, entramos com a repressão e eles previnem, efetuamos a prisão, em caso concreto investigado”, descreve.

Além de combater a ação do pequeno traficante com as operações pontuais por parte da Polícia Militar mediante a investigação da Polícia Civil, a meta da Secretaria de Segurança Pública para este ano é diminuir também o número de furto e de roubo de veículos em Goiás. “O aumento no número de roubo de veículos no mês de março é reflexo das grandes apreensões de drogas desencadeadas no mês passado pela Denarc”, diz.

De acordo com a Polícia Civil, usuários de crack estão roubando veículos em assalto à mão armada nas ruas de Goiânia e vendem a preços irrisórios, a mando dos traficantes. Os veículos são repassados a chefes do tráfico de drogas e tem como destino o Paraguai, onde são trocados por maconha, e Colômbia e Bolívia onde são trocados por pasta-base de cocaína, que será transformada em crack.

Para Odair, o crescente número de roubos coincidiu com o período pós-apreensão de uma grande quantidade de drogas feitas pela polícia em fevereiro deste ano. Em apenas uma operação a Denarc apreendeu 232 quilos de pasta-base de cocaína. Outro grave problema causado pelo uso das drogas na Capital, está no alarmante número de homicídios. Com base em estatística da Delegacia Estadual de Investigação de Homicídios (DIH) 80% das vítimas de homicídio em Goiânia está relacionada ao uso ou tráfico de drogas ou ainda o desentendimento entre traficantes.

Visando diminuir os altos índices de homicídio registrados em todo o Estado, principalmente, na Capital onde no ano passado aconteceram 621 assassinatos, a estratégia adotada pelo comando da Polícia Civil e Militar é o combate à ação do pequeno traficante. A PM registra recordes de apreensão de drogas, trabalho resultante principalmente da ação do COD. Desde o início de 2014 a Denarc já fez apreensão de mais de uma tonelada de cocaína a segunda mais consumida na cidade.

Embora a maconha seja o entorpecente de maior consumo no mundo, ela apresenta um impacto sobre a saúde menor do que outras drogas, particularmente porque está relacionada a um menor índice de dependência: 13 milhões de pessoas, contra 17,2 milhões de dependentes de anfetaminas e 15,5 milhões de opiáceos.

PÚBLICO

Para Soares, hoje não existe mais distinção de idade, raça seja ela branca, negra, amarela, rico ou pobre para definir o público usuário de drogas. “Outro dia, em uma só tarde, nós filmamos todas as gerações comprando drogas desde uma criança de oito anos de idade a um senhor de 60. É claro que há um significativo uso por parte dos jovens, mas hoje é geral”, pontua.

Quanto ao grupo que mais morre envolvido com drogas, ele define que são os jovens de periferia e da raça negra. “Esse é o perfil de quem mata e está morrendo”, cita também quais os bairros em Goiânia onde há droga, dinheiro, vendedor e comprador, dentre eles, cita Setor Pedro Ludovico, Nova Esperança, Jardim Curitiba, Novo Mundo, Centro de Goiânia, Norte Ferroviário, Setor Universitário, Itatiaia e Crimeia Leste. “Através de investigações chegamos ao traficante pequeno, médio e ao grande”, conclui.

COMO EXPLICAR

O VÍCIO

De acordo com o psiquiatra e coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas na Faculdade de Medicina da Unifesp, Ronaldo Laranjeira o mecanismo do corpo humano que explica o processo de dependência da droga está no fato de existir, no cérebro, uma área responsável pelo prazer. A mesma responsável pelo prazer que sentimos ao comer ou fazer sexo.

Segundo ele, quando sentimos prazer ao fazer sexo à tendência é querer repetir. “Desse modo, evolutivamente, criamos essa área de recompensa e é nela que a ação química de diversas drogas interfere. O cigarro, álcool, maconha, cocaína ou heroína, apesar de cada uma possuir mecanismo de ação e efeitos diferentes, só produzem dependência às drogas que de algum modo atuam nessa área”, explica.

Ele reconhece que para quem está de fora é difícil entender por que o usuário de cocaína, de crack ou dependente químico não abandona o vício mesmo com a saúde já deteriorada. “Na verdade, essa pessoa está doente”, esclarece, lembrando que, de alguma maneira, as drogas corrompem o sistema de recompensa no cérebro e a pessoa passa a dar preferência quase que absoluta ao vício, mesmo que isso atrapalhe as demais áreas da vida dela.

“Tal comportamento reflete uma disfunção do cérebro, a atenção do dependente se volta para o prazer imediato propiciado pelo uso da droga, fazendo com que percam significado todas as outras fontes de prazer”, define.

uma doença

Segundo a mestra em Dependência Química e Transtorno Mental, psicoterapeuta e professora do ICG, Vilma Ramos a necessidade da substância é psicológica e física. “A dependência é originariamente uma doença. Esta patologia vem primeiro e as consequências da dependência causam problemas físicos e sociais”, descreve.

A psicoterapeuta define que a pessoa se torna dependente de substância química como álcool e drogas quando desenvolve o desejo mentalmente incontrolável pelo uso. “O principal objetivo seria o se sentir bem e, ao mesmo tempo, impedir a sensação de mal-estar, incluindo aquela de não usar a substância”, avalia.

O vício da dependência não prejudica só o dependente, é um problema que atinge toda família. Especialistas avaliam que qualquer tipo de comportamento toxicomaníaco tem uma incidência sobre aqueles que rodeiam a pessoa em causa e, sobretudo, sobre a sua família, tornando-a co-dependente do problema.

De acordo com psicoterapeuta, Vilma, a co-dependência se caracteriza por um comportamento que leva as pessoas a controlar os outros, visando o próprio benefício, causando problemas a si próprios e ao relacionamento com o dependente. “Elas são muito controladoras e sempre pensam que estão ajudando quando, na verdade, estão causando mais problemas e ressentimentos”, alerta.

Descreve que o convívio com o dependente faz com que os familiares adoeçam emocionalmente, sendo necessário que o familiar também se trate e ao mesmo tempo, receba orientações a respeito de como lidar com o dependente, como lidar com seus sentimentos em relação ao mesmo. “O diagnóstico da co-dependência é fundamental no tratamento de transtornos e dependência química. Através do tratamento o processo de recuperação se torna mais apropriado”, reconhece ela “tanto de um, quanto de outro, diminuindo o risco de recaídas”.

Fonte: Diário da Manhã

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